A oposição conservadora perdeu a eleição presidencial e afundou-se no pântano da desagregação. Para o futuro, precisará decifrar o enigma da enorme aprovação popular de Lula no final do governo.
Por José Carlos Ruy
A direita, capitaneada pelo PSDB e pelo DEM, com o PPS como coadjuvante, sofreu uma dupla derrota em 2010.A primeira foi causada pela alienação de dirigentes políticos que não compreenderam as mudanças políticas ocorridas nos últimos oito anos e acreditaram que seu discursinho chocho baseado na “competência” e na “boa governança” ainda podia sensibilizar um eleitorado beneficiado porque governo que, pela primeira vez em décadas, teve o bem estar do povo e da economia e a soberania nacional entre suas principais prioridades. Foi a derrota da alienação de gente que nunca falou a linguagem do país e dos brasileiros, mas a dos donos do dinheiro. Vivendo ainda em um passado político superado, sonharam com uma vitória fácil sobre a candidata das forças democráticas, progressistas e patrióticas, fizeram uma iníqua campanha eleitoral e perderam.
A outra derrota foi a da soberba. O candidato tucano, autoungido para a disputa presidencial, colecionou adversários particularmente entre seus próprios partidários e aliados. Agindo como se tivesse direito por la gracia de dios ao mandato presidencial após Lula, como os fundamentalistas religiosos que o cercaram pareciam crer, começou fugindo de qualquer consulta democrática dentro de seu próprio partido, atropelou as pretensões do tucano mineiro Aécio Neves, fez uma campanha errática, e perdeu, deixando um saldo de desagregação dentro de seu próprio partido, o PSDB.
A derrota da alienação
Estas duas derrotas começaram a ser desenhadas já no final de 2009, quando houve o embate com Aécio Neves. E a pretensão tucana era do tamanho do bico da ave. A campanha ainda não estava oficialmente nas ruas e a revista Veja pretendeu fincar a imagem de Serra como um “pós-Lula”. Imaginaram que a autopropaganda de um Serra mais preparado o ajudaria a vencer uma Dilma que, diziam, era o “poste de Lula”. Calculavam que, mal aberta a campanha eleitoral e a propaganda no rádio e na tevê, Serra decolaria. Mas sua carreira foi, como registrou naqueles meses o jornalista Elio Gaspari, uma cavalgada rumo ao nada.
Para desespero do tucanato, já no início de julho Dilma e Serra estavam empatados nas pesquisas de opinião, na faixa dos 39%, e a popularidade de Lula explodia, beirando os 80% e alimentando as expectativas favoráveis em relação a Dilma Rousseff, numa projeção crescente que se manteve até o final da disputa e consagrou a vitória de Dilma e das forças avançadas reunidas em torno de sua candidatura. Era a “onda vermelha” que já se prenunciava.
Serra colecionou descalabros. A escolha do vice foi um desastre provocado pela prepotência do candidato, que não levou em conta nem ouviu seus aliados e, no final, improvisou indicando um vice sem envergadura para o segundo principal posto da República, o de substituto legal do presidente. E que trouxe consequências danosas para uma aliança política trincada como a que se reuniu em torno de José Serra.
O destempero tucano face a uma realidade política que se recusava a seguir o roteiro imaginado pela politicologia emplumada começou a se traduzir também na baixaria que passou a dominar a campanha. Serra ainda mantinha um comportamento ambíguo. Ora ainda se apresentava como um “pós-Lula” e uma espécie de herdeiro ilegítimo do presidente (chegou a apresentar, indevidamente, a imagem de Lula em seu programa de televisão). Mas usou imagens fortes e caluniosas, sugerindo a conivência do governo com o tráfico de drogas, com as FARC e com a criminalidade, e a complacência o governo boliviano que, disse Serra, era cúmplice do contrabando de drogas para o Brasil.
Ainda em maio, Serra introduziu o tema do aborto na campanha, reafirmado numa sabatina na Folha de S. Paulo (“considero o aborto uma coisa terrível”, disse), caro aos religiosos mais carolas e conservadores, na campanha eleitoral. Era um afago na hipocrisia conservadora que, algumas semanas depois, custaria caro ao candidato tucano.
Se a derrota não tem paternidade assumida, o prenúncio dela não é um bom conselheiro – foi o que se assistiu nos arraiais tucanos desde o mês de julho, quando a campanha de José Serra caminhava aos cambalhões. O tucano apelou para o “discurso do medo” e começou o festival de acusações falsas, saídas da boca do candidato, do vice, de seus aliados ou da grande mídia. O noticiário e a campanha foram inundados, assim, com acusações de espionagem do segredo fiscal de um cardeal tucano, Eduardo Jorge, que serviria para elaborar um dossiê anti-Serra. Depois, as acusações envolviam também a filha do candidato, Verônica, como vítima de espionagem. Depois começaram as alegações de que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva rompia com a liturgia (e com uma pretensa neutralidade partidária) do cargo ao participar da campanha de Dilma.
Mesmo assim, a derrota tucana ia ganhando cores firmes e fortes. No início de agosto, um mês depois da abertura oficial da disputa, a popularidade de Lula seguia na casa dos 80%, a rejeição ao nome de José Serra era alta, e Dilma abria uma vantagem de dez pontos sobre ele.
Já em meados de agosto o gosto da derrota aparecia em previsões de que a eleição seria decidida no primeiro turno, e a favor de Dilma, cujo desempenho nas pesquisas era crescente, repetindo aliás a aprovação do presidente Lula e de seu governo.
Calúnias e mentiras
A cara feia da derrota começava a aparecer no próprio campo tucano, onde candidatos a governador do PSDB ou aliados de Serra escondiam qualquer referência a seu nome em seus santinhos, adesivos e cartazes para não contaminar suas próprias candidaturas com a rejeição ao candidato da direita. Calculou-se na época que os Estados onde Serra era rifado por seus próprios aliados tinham, juntos, nada menos que 94 milhões de eleitores (70% do eleitorado nacional).
O mau desempenho de Serra e a tentativa de construir obstáculos para Dilma caminharam juntos. Em setembro Serra mudou seu slogan de campanha para uma hipotética — e defensiva — “hora da virada" e seus partidários passavam agora a rezar por um fato bombástico que pudesse mudar o quadro. As acusações de espionagem na Receita Federal se acentuaram, os ataques midiáticos contra a candidata se repetiam e, mesmo assim, o eleitorado parecia indiferente a eles, e as pesquisas de opinião mostravam que Dilma continuava muito à frente de Serra no apreço popular.
Pode-se ouvir então outro mantra nos acampamentos tucanos, o mantra da “mexicanização” entoado por analistas tucanos que, ante a derrota, viam uma evolução político-eleitoral semelhante ao que ocorreu no México cuja política foi dominada, entre a década de 1930 e o ano 2000, por um único partido o PRI (Partido Revolucionário Institucional), que elegeu todos os presidentes naquele período. Argumento pobre, que não prosperou até mesmo porque se o Brasil não é o México, o PT e seus aliados não formam um PRI e a escolha do presidente da República é uma prerrogativa livre do eleitorado.
Teses igualmente esdrúxulas e desqualificadoras da escolha popular começaram a circular, como aquela segundo a qual a democracia requer alternância de partidos à frente da Presidência. Ora, quem escolhe os ocupantes do mais alto cargo da nação não são “teóricos iluminados” em busca da legitimação de seus próprios interesses, mas o eleitor que manifesta sua vontade na solidão da urna eletrônica.
Em setembro, no auge do desespero tucano, a revista Veja socorreu Serra com as acusações contra a ministra-chefe da Casa Civil, Erenice Guerra e seu filho, por tráfico de influência. A Folha de S. Paulo tentou engrossar o caldo com uma denúncia de irregularidades no BNDES que caiu no ridículo quando o próprio banco estatal divulgou uma nota deixando claro foi o desconhecimento do jornal e de seu repórter sobre os critérios de funcionamento da instituição que fundamentou uma denúncia tão estapafúrdia como a tentada pelo diário paulistano.
Apesar do bombardeio, Dilma parecia refratária aos ataques e continuava favorita nas pesquisas, a ponto do diário espanhol El País prever, no dia 20 de setembro, que José Serra teria uma “derrota humilhante” em 3 de outubro.
A retórica da baixaria foi fortalecida, quase na véspera da eleição, pela exibição pelo programa eleitoral de Serra de vídeos extremamente ofensivos aos partidários de Dilma, retratando-os como pitt bulls e demolidores da democracia. A reação negativa foi tão forte que Serra não teve outra alternativa senão renegar publicamente aquelas peças publicitárias que, suspeita-se, ele próprio teria aprovado mas diante do insucesso disse desconhecer sua autoria.
Dilma chegou à véspera da eleição com 55% das intenções de voto, Lula com a aprovação recorde de 85% ao seu governo. Mas o eleitor decidiu dar um tempo e levar a decisão para o segundo turno, e Dilma não alcançou a maioria necessária para vencer em 3 de outubro. Ela teve 47,6 milhões de votos (47% do total), Serra teve 33 milhões (32,6%) e, uma surpresa, Marina Silva teve 19,6 milhões (19,3%).
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